Archives: janeiro 2015

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Foi uma grande satisfação fazer parte deste projeto! Lenha na Caldeira!

Bruno Accioly

15/01/2015 – A criação de Lição de Anatomia – Parte IV

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A Capa de “Lição de Anatomia”

Quando o anúncio de que Brasiliana Steampunk havia vencido o concurso da Fantasy/Casa da Palavra foi feito, no dia 16 de junho de 2014 – lembro do dia pois estava comemorando o Bloomsday com alguns amigos, o que significa beber, conversar alto e ler poesia no microfone no bar Ponto de Cinema, em Santa Maria – meu grande entusiasmo foi acrescido de imensa apreensão, findando apenas no dia 31 de agosto, quando o livro foi lançado na Bienal do Livro em São Paulo.

Todos sabemos que um livro – por mais que se possa falar de suas ideias, de suas abstrações conceituais, das motivações psicológicas que levaram à sua escrita – é também um produto e como qualquer produto pode ou não chamar a atenção do público. E neste quesito, tanto a capa quanto a diagramação são fatores essenciais para se conseguir não apenas chamar a atenção para o produto em si como também para o seu conteúdo.

Nos primeiros diálogos com Affonso Solano sobre a capa, ele defendeu o nome de Rodney Buchemi, artista mineiro que tem em seu currículo trabalhos tanto para Marvel quanto para a DC Comics. Do ponto de vista de Solano, a escolha de um artista com experiência em quadrinhos daria ao projeto gráfico de Brasiliana Steampunk uma dimensão mais “super-heróica”, um elemento que na sua opinião seria fundamental ao sucesso do livro.

Até hoje, quando me perguntam sobre o gênero de “Lição de Anatomia”, fico na dúvida sobre a resposta que devo dar, uma vez que o livro é muita coisa: é uma história de ficção científica steampunk; é também uma história de suspense e horror psicológico – em especial se pensarmos nos crimes de Louison e na Camarilha da Dor; mas também apresenta um universo no qual os heróis da literatura brasileira formam essa “liga extraordinária” disfarçada de “sociedade secreta”. Em função disso, minha principal dúvida estava em como comunicar esses três elementos numa capa?

Do alto de minha inexperiência, pensava que seria necessária escolher apenas um desses elementos e ignorar os outros dois, o que levaria o livro a correr o risco de atrair apenas um tipo de público. E aqui, novamente, entram os talentos de Solano e Buchemi.

Em trocas de e-mails com Solano, sugeri alguns personagens e enviei longas descrições dos heróis que pensava como fundamentais à cara do livro. É claro que queria todo o elenco, o que significa entulhar a capa com mais de vinte personagens. Pacientemente Solano explicou-me que usaríamos apenas quatro, dois masculinos e dois femininos, além de um elemento que comunicasse a dimensão retrofuturista do cenário. Depois de lamentar um pouco, acordamos que esses seriam Louison como figura ameaçadora central, Vitória Acauã, Rita Baiana ou Beatriz e Pedro Britto Cândido.

Deste primeiro diálogo, Buchemi pensou em cinco propostas, sendo que cada uma delas privilegiava aspectos diferentes do universo de Brasiliana Steampunk e seus moradores.

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Eu particularmente gostei de todas elas, apesar de ter uma predileção pela primeira proposta e a última. A primeira tinha uma perspectiva que indicava perigo e urgência, além robôs e zepelins – e claro que teria adorado uma capa com um zepelim! Apenas alertei para a posição da personagem feminina que estava abraçada a Pedro Cândido na última opção. Escrevi a Solano que a capa estava bonita, mas que não havia “mocinhas em perigo” em Brasiliana Steampunk; quanto muito, “mocinhos em perigo”.

Mais uma vez, Solano e Buchemi compreenderam e respeitaram meu pedido, com sua delicadeza e profissionalismo costumeiros.  A partir destes últimos ajustes, Buchemi chegou à última proposta de Layout no exato momento em que o prazo estava esgotando. Na versão final, os zepelins foram substituídos pelos robóticos e Beatriz foi substituída por Rita Baiana.

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Eu tinha ainda duas considerações. Achava o bigode de Louison bem estranho, em especial ao pensar naquele ideal de vilão mais charmoso do que ameaçador e as cores muito vivas, um pouco distantes daquilo que os tons mais chapados e cobreados do Steampunk mereceriam.

Solano explicou-me que o Louison da capa correspondia não ao “Louison” que eu tinha em minha cabeça ou mesmo ao “Louison” mais charmoso e refinado presente no texto e sim ao “Estripador da Perdição”, ao “Mefistófeles Tupiniquim”, ao “Terrível Diabo”, ao “Alcaide Infernal”, entre outras nomenclaturas, que os jornais da capital deram ao doutor quando ele foi preso. Ademais, tal “interpretação” correspondia também à leitura que Buchemi havia feito e que o divertido do processo era justamente isso: ver meus personagens ganharem vida a partir de outras interpretações. Quanto às cores, disse-me ele que deveria também esperar, pois agora entraria em cena Rico Bacellar, designer que seria o responsável pela capa e pelo projeto gráfico de “Lição de Anatomia”.

Qual não foi minha surpresa quando, num final de semana de férias, recebo a versão final da capa do primeiro volume de Brasiliana Steampunk. As cores e o “desgaste” steampunk estavam lá. A natureza pulp da história se fazia presente na fonte, no título e também na maravilhosa logomarca criada por Bacellar para a série, em forma de um relógio que não apenas me lembravam as engrenagens do universo steam como também o inesquecível relógio de Watchmen, de Alan Moore – uma das minhas principais fontes de inspirações sempre.

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O que aprendi com a feitura do livro – do ponto em que o resultado do concurso foi anunciado até a sua publicação – foi o quanto se ganha com um trabalho afinado e profissional, não apenas dos três artistas citados – Solano, Buchemi e Bacellar – como também de toda a equipe da Casa da Palavra/LeYa.

Nos eventos que participei para a divulgação e lançamento do romance – entre eles a própria Bienal bem como a Comic Con Experience, também em São Paulo – foram diversos os comentários elogiosos à arte e ao quanto Brasiliana Steampunk é um “livro que vende pela capa”. De minha parte, além da óbvia alegria de ver meu livro tão bem apresentado, fica a expectativa de que o seu conteúdo faça também jus a todos esses elogios.

Um abraço a todos vocês

Enéias Tavares

07/01/2014 – A criação de Lição de Anatomia – Parte III

 

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A Estrutura do Romance e a Linguagem dos Heróis da Literatura Brasileira

Tendo estabelecido a ideia principal e os elementos que desejava para a narrativa, todos mais ou menos presentes no “Argumento”, entre dezembro de 2013 e abril de 2014 mergulhei na escrita do texto que se tornaria “A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison”.

Deixei o que tinha pronto de lado, torcendo para que, talvez, em algum momento eu pudesse utilizar alguns dos textos que produzira anos, fosse o conto de Louison ou a noveleta que tratava do diálogo entre o herói e o investigador.

Para estipular as principais metas, parti do princípio de que as duas primeiras partes – Jornalistas & Monstros e Alienados & Alienistas – seriam escritas pelos dois personagens que haviam guiado minhas ideias até então: Isaías Caminha e Simão Bacamarte.

Caminha seria nosso guia ao entrar no universo de Brasiliana Steampunk, uma vez que é um estrangeiro e um narrador detalhista e metódico no modo como relata suas experiências e o mundo ao seu redor. Por outro, lado, Simão seria mais fragmentado e rápido, mais interessado na loucura dos eventos do que na descrição de cômodos ou cenários.

A terceira parte – Aventureiros Místicos & Cafetinas de Luxo – seria a mais desafiadora, uma vez que o escopo de cartas, diários, recibos e mensagens eram muito maior. Se tive imenso trabalho em detalhar a linguagem de Caminha e Bacamarte nas primeiras partes, nela o esforço seria criar uma variedade tonal que perpassasse a linguagem administrativa de Léonie, o discurso sedutor de Pombinha, a fala mais oral de Pombinha, os diálogos amorosos de Sergio e Bento, os conselhos rápidos de Benignus, as dúvidas existências de Vitória e o retorno de Caminha, que agora penetrava nos mistérios do Parthenon Místico.

Acho que de todas, a terceira parte foi a que mais recebeu revisões. Sob um certo aspecto, ainda trata-se da parte da narrativa que menos me satisfez, apesar de ter apreciado muitos dos seus resultados. Penso que os próximos romances servirão também para dar mais espaços a personagens que, apesar de coadjuvantes em “Lição de Anatomia”, mereceriam maior destaque. E aqui falo tanto dos aventureiros do Parthenon Místico quanto das damas do Palacete dos Prazeres, personagens que respectivamente serão os protagonistas do segundo e do quarto volume da série.

(Isso, claro, que se os leitores estiverem interessados neles e a editora concordar em continuar investindo nos planos absurdos e delirantes deste escritor principiante.)

Quanto à segunda metade do romance, ela foi uma consequência lógica do que o enredo pedia. Se as primeiras três partes fizeram muitas perguntas, as últimas três iriam respondê-las. Senão todas, as principais. Uma das partes seria narrada por Pedro Britto Cândido. Outra por Beatriz. E a última por Louison.

Aqui, retornei, em algumas passagens ao que já havia escrito anos antes. Assim, na versão final do romance, o conto de 2009 virou o “Interlúdio Dramático” e a noveleta de 2010 deu origem a algumas passagens das partes quatro e seis – Investigadores & Investigados e Assassinos Sórdidos & Heróis Improváveis –, narradas justamente pelo investigador e pelo assassino procurado.

A quinta parte – Homens Escravos & Mulheres Livres – é inédita e foi escrita num intervalo de dois dias. Curiosamente, considero-o uma das passagens mais intensas do romance. Nela, pude tratar não apenas de escravidão, violência, paixão e vingança, como de problemas que dizem respeito à opressão do feminino no século 19. Para fechar, teria novamente Caminha escrevendo a Conclusão do drama. Aquele que nos introduzira aos moradores de Porto Alegre dos Amantes seria também aquele que nos ajudaria a dar adeus àquele mundo e aos seus exóticos habitantes.

Do ponto de vista da narrativa, agradaram-me as várias vozes que cada um dos personagens assumiu. Acreditava que se o romance não fosse entediante de se escrever, não seria entediante de se ler. Apostei nessa variedade pensando que para o leitor seria um exercício interessante se adaptar a essas diferentes perspectivas, muitas delas até mesmo antagônicas ou paradoxais. É interessante contrastar, por exemplo, a visão que Bacamarte tem de si próprio com o modo como todos os outros heróis o veem: como o lunático que, tragicamente, é o responsável pela casa de loucos.

Outro desafio interessante, a meu ver, estarei na construção temporal do romance. A primeira parte se passaria em quatro dias, a segunda em quatro anos e a terceira em quase uma década, deixando às últimas três partes a resolução do mistério ocorrendo em poucas horas, apesar de remeter a acontecimentos de anos. Tal construção me animou muito, pois pensei que se fosse um problema dos infernos montar um tal quebra-cabeça o leitor poderia ter uma experiência similar enquanto acompanhasse a narrativa.

Para dar conta desse problema em termos práticos, a primeira coisa que fiz foi colar na parede, ao lado do computador, uma imensa folha A2 na qual coloquei todos esses eventos na ordem cronológica tradicional. Até semanas antes da publicação de “Lição de Anatomia”, estava eu revisando essa cronologia louca, morrendo de medo de ter cometido algum equívoco ou erro.

E obviamente, havia também o medo de que nada daquilo funcionasse para o leitor.

Felizmente, parece que tais experimentações não os têm afugentado.

Desde o início, Brasiliana Steampunk foi uma grande aposta de todos os envolvidos. De minha parte, uma aposta na narrativa e na forma de se contar uma história de modo pouco convencional. Ademais, uma aposta na pertinência e na importância dos grandes heróis da literatura brasileira na contemporaneidade. Ademais, uma aposta da Casa da Palavra/LeYa não apenas em escolhê-la como obra vencedora do concurso “A Fantasy quer o seu mundo” como também na própria publicação. Por fim, uma aposta dos leitores que tem dedicado horas de seu tempo à sua leitura. Espero que para todos os envolvidos, o romance compense o esforço. Para mim, tem compensado.

E muito.

O restante da história da criação do primeiro volume de Brasiliana Steampunk será narrado na próxima postagem, que tratará da confecção da capa e da diagramação de “Lição de Anatomia”.

 

27/12/2014 – A criação de Lição de Anatomia – Parte II

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O Primeiro Argumento

Antes de mergulhar na escrita do primeiro volume de Brasiliana Steampunk – na verdade, muito antes de saber que a série seria de fato uma série – pensei que seria fundamental detalhar a minha proposta num argumento que poderia ilustrar a possíveis editores quais eram os meus planos. O que segue, é o primeiro “brainstorm” do que viria a ser “Lição de Anatomia”. Neste argumento, havia ainda uma mescla entre personagens históricos e literários e um centralidade maior de heróis machadianos, que por fim foram riscados da versão final.

Além disso, não tinha ainda ideia alguma de como resolveria os grandes problemas narrativos que havia proposto ou mesmo como usaria essas diferentes vozes literárias para contar a história de Louison e Cia. Por outro lado, a escrita do argumento revelava uma segurança maior com o universo que estava começando a surgir. Neste interim, enquanto pensava em aprofundar o argumento, dedicava horas e horas à leitura dos clássicos que iria conspurcar/homenagear, anotando ideias, construções frasais, padrões vocabulares, entre outras marcas textuais que seriam parodiadas por suas contrapartes retrofuturistas.

“O enredo se passa entre os dias 10 e 24 de Julho de 1911, data que marca o início do transporte de passageiros do futurístico Zeppelin Brazil D658 entre as capitais do Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Nesta, vive o médico, pintor e ensaísta Antoine Frederico Louison, figura controversa e escandalosa que foi presa pelo Investigador Pedro Britto Cândido sob suspeita de crimes que desafiam a lógica, a moralidade e a metafísica. Enquanto o temível doutor está encarcerado, seu sobrado é interditado e investigado. O casarão fica próximo ao verdejante e pantanoso Parque da Redenção, mais conhecido nos arredores como Bueiro da Perdição. No escritório de Louison, as grosseiras e devotas forças policiais apreendem escritos, diários e utensílios de rara precisão e misteriosa procedência. Em seu julgamento, para o horror dos presentes e júbilo da imprensa, os corvos jurídico-publicitários apresentam indícios de que Louison seduzira, alimentara, entorpecera e matara no mínimo sete vítimas, usando-as como modelos de estudos anatômicos. Após sua condenação, o médico é enviado ao Asilo São Pedro para Criminosos Lunáticos, Esquizofrênicos Seriais e Histéricas Incontroláveis, sob a vigilância do centenário carrasco Simão Bacamarte, instalado na capital gaúcha desde o escândalo do hospício-bordel Casa Verde. Inexplicavelmente, depois de três dias e quatro noites, Louison escapa, desaparecendo no ar noturno como um fantasma de folhetim. Para a inquietação das Tropas e prazer dos pasquins de plantão, deixa em sua cela um manuscrito cabalístico ilegível, vestes dobradas sobre o leito e uma luneta mágica que, dependendo do ajuste de seu dispositivo mecânico, mostra diferentes facetas de objetos, seres e lugares.

O romance, dividido em cinco movimentos operísticos, apresenta vários narradores, como Isaias Caminha, Simão Bacamarte, Sergio Pompeu, Cândido e o próprio Louison. Ademais, tal relato reproduz, pela primeira vez ao público, páginas do relatório policial que levou à captura, parágrafos dos autos do processo, que incluem dramáticos testemunhos de vizinhos que nada viram mas que de tudo sempre suspeitaram, além de trinta páginas escandalosas do diário pessoal do Doutor – registro intragável, não recomendado a leitores sensíveis e cardíacos, que confirma as suspeitas sobre os atos imorais e pérfidos que o médico praticou contra figuras notórias da sociedade porto-alegrense do período, figuras que compunham a seleta camarilha estética que o próprio facínora integrava. No último movimento do romance, Cândido descobrirá a verdade sobre a fuga do celerado, Louison garantirá a sua partida em direção ao Rio de Janeiro a bordo do Zeppelin em formidável companhia e o leitor será surpreendido com a verdadeira identidade de um dos heróis desta tenebrosa narrativa.

Tal admirável experimento romanesco apresenta ainda como coadjuvantes os investigadores ocultistas Sergio Pompeu e Beatriz Amarante, ambos integrantes da sociedade secreta Partenon Místico, o dândi africano Joãozinho Caixa Alta, o padre cientista Marcel de Souza, especialista em transmissão de voz e em pictogramas photo-temporais, o jornalista, agitador e anarquista Isaías Caminha, a enigmática médium indígena Vitória Acauã, o reencarnado José Maria, devoto da Igreja do Diabo e íntimo do Bruxo do Cosme Velho e um espírito chamado Braz, o jovem aventureiro Bento Alves, as cafetinas de luxo Rita Baiana, Pombinha e Léonie, donas do Palacete dos Deleites, o alquimista e imortal Solfieri de Azevedo e a libertina Madame de Quendal, entre outras personalidades de inegável requinte, renome e prestígio, todas historicamente ficcionais.

Este primeiro volume, intitulado Lição de Anatomia, configura um investimento folhetinesco que une os gêneros policial e horror à estética steampunk. Trata-se de um mundo no qual personagens literárias mesclam-se a personagens autorais e históricas, no qual um herói de Álvares de Azevedo pode garantir sua imortalidade e homenagear seu criador assumindo seu sobrenome, no qual poetas e figuras históricas dividem a cena com um hipotético Sergio Pompeu e no qual um dândi negro pode visitar o cabaré de Rita Baiana, self-made woman de renome mundial. Nesse universo, onde a linha divisória entre o real e o ficcional é borrada pelo vapor futurista, Zeppelins cortam o céu esfumaçado de uma decadente Porto Alegre art nouveau, ruas são iluminadas por luz photoelétrica, bondes mecanizados carregam passageiros misteriosos, assassinos anônimos visitam confeitarias espíritas, cabalistas transmutam-se em larápios magistas e líderes político-religiosos se revelam malfeitores, todos entrelaçados no encontro singular entre Louison, Madame de Quendal e Brito Cândido. Trata-se de um mundo de lampiões de zinco e prata, requintadas carteiras metálicas de rapé, fumos e incensos orientais, cortinas vermelhas e divãs acetinados, floretes afiados e bastões de madrepérola, jogatina legalizada e licores proibidos, prazeres mórbidos e ideais nada utópicos.”

No final de 2013, reuni coragem e enviei o argumento a um editor paulistano, à época responsável por uma editora de médio porte e reconhecida pelo investimento nos gêneros de ficção científica, fantasia e horror. A resposta foi promissora. Informou-me ele que o argumento era bom, mas que nada poderia ser feito sem antes ver o manuscrito. Foi com esse incentivo em mente que continuei a escrita do primeiro romance de Brasiliana Steampunk.

 

10/12/2014 – A criação de Lição de Anatomia – Parte I

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Primeiros Esboços

Hoje, narrarei ao intrépido leitor ou à ousada leitora como cheguei à versão publicada de “A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison”. Para tanto, dividirei essa postagem em quatro partes, que detalham desde os primeiros insights, ocorridos em 2009, até a versão final publicada pela Casa da Palvra/LeYa em agosto deste ano.

Em 2009, mudei-me para Porto Alegre e empreendi um sonho antigo: me inscrever no processo seletivo da Oficina de Escrita Criativa da PUC-RS, curso anual ministrado pelo escritor e professor Luis Antonio de Assis Brasil. Tal oficina, a mais antiga do Brasil, já batendo na marca de trinta anos de existência, era ministrada em dois semestres, num ritmo fantástico de quinze encontros semanais.

Tratava-se de uma oportunidade bem especial de pertencer a uma turma de aspirantes a escritor na presença de um autor já consagrado e com uma grande bagagem cultural e literária. Além disso, uma oportunidade de obter um retorno crítico por parte de pessoas que não eram necessariamente amigos ou parentes.

Na época, o processo seletivo para a oficina exigia a entrega de três contos nos quais os autores deveriam minimamente evidenciar seu talento espontâneo ou, quando não, sua mínima percepção da técnica narrativa. Um dos contos que entreguei chamava-se “A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison”, peça narrativa em primeira pessoa na qual um assassino em série detalhava a sedução, o assassinato e a disposição das partes do corpo de sua vítima.

No ano seguinte à oficina, cogitei transformar aquele conto numa pequena noveleta em quatro partes que possuía o mesmo título. Porém agora, havia acrescentado outro personagem: um investigador grosseirão e desbocado que contrastaria com o assassino requintado e articulado. A noveleta se passava no final da década de 1940 e tinha por cenário Belo Horizonte. Em sua estrutura, havia um entrevistador cuja identidade permanecia em mistério até o dramático clímax e que conversava com o detetive Cândido a respeito da prisão e da escapada do assassino. Ao término, Louison revelava-se o entrevistador – que após a escapada havia se escondido no lugar menos suspeito: a casa do homem que efetuou sua prisão – e assassinava Cândido com uma lâmina cravada em seu coração. Ao deixar a casa na qual vivia o pobre policial, levava consigo o negro gato do seu arqui-inimigo.

Aquela noveleta de horror era sobre um vilão fascinante e atraente, bem mais simpático que o biltre e desgastado investigador. Obviamente, na criação de Louison eu estava buscando a imagem do “belo demoníaco”, termo literário usado para denominar os charmosos vilões shakespearianos e o Satã de Milton. Em nossos dias, seu correlativo é o vampiro sedutor (seja ele o Drácula de Coppola ou o Lestat de Anne Rice) ou a miríade de assassinos em série fascinantes que simplesmente invadiram a literatura, os quadrinhos e o cinema nas últimas décadas (e aqui vamos desde Dexter até o pai dos assassinos em série classudos, um certo doutor chamado Hannibal the Canibal).

A novela ganhara um subtítulo, “Da Arte como Amoralidade”, numa tentativa minha de produzir igualmente uma história de ficção e um tratado de estética. Como podem imaginar, a pretensão do imberbe escritor soçobrou e o resultado ficou aquém do esperado. E quando nem meus amigos mais queridos disseram que haviam gostado, fiz o que todo profissional inteligente faz quando recebe uma crítica: engaveta o erro ou parte para um novo projeto.

Eu optei pela segunda opção, ignorando o conto e a novela até setembro de 2013, quando decidi retomar a antiga ideia de Louison enfrentando o olhar investigativo de Pedro Britto Cândido. Porém, quando retomei à história, ela parecia-me mais e mais fraca, faltando a ela uma perspectiva adequada e uma mínima estrutura narrativa. Foi quando duas ideias e mudaram a cara do projeto de modo definitivo.

A primeira foi a percepção de que eu poderia usar personagens da literatura brasileira para contar essa história, recorrendo às suas vozes narrativas para dar conta do mundo e dos acontecimentos ao redor do enredo principal. E foi assim que cheguei a Isaías Caminha (Memórias do Escrivão IC, de Lima Barreto), chegando a Porto Alegre dos Amantes – não queria mais uma cidade desconhecida e sim uma cidade com a qual tivesse uma relação afetiva também – para escrever uma reportagem sobre os crimes de Louison, então internado num hospício sob a direção de Simão Bacamarte (O Alienista, de Machado de Assis).

Ao lado desses ícones, teria outros cenários que reuniriam também personalidades literárias. De um lado, o Palacete dos Prazeres, prostíbulo de luxo frequentado por Louison e suas vítimas, então sob a administração de Rita Baiana, Léonie e Pombinha (O Cortiço, de Aluízio de Azevedo). Do outro, uma sociedade secreta chamada Parthenon Místico (numa alusão ao Partenon Literário que existiu em Porto Alegre no século 19), formada pelos aventureiros do oculto Sergio e Bento Alves (O Ateneu, de Raul Pompeu), pelo cientista louco Doutor Benignus (criado por Augusto Emilio Zaluar num romance homônimo), pela médium indígena Vitória Acauã (Contos Amazônicos, de Inglês de Souza) e o imortal satanista Solfieri (Noite da Taverna, de Alvares de Azevedo). Além disso, abrilhantariam o grupo a presença de uma Luneta Mágica (criada por Joaquim Manuel de Macedo) e A Ilha do Desencanto (cenário criado por Apeles Porto Alegre no romance Georgina).

O segundo elemento adveio da intenção de escrever uma história popular, direcionada a um público juvenil/adulto. Foi aí que a estética steampunk surgiu, com seus zepelins, autômatos, utensílios místicos & ferramentas tecnostáticas. Com o verniz retrofuturista, voltaria também ao tempo dos grandes capotes e sobretudos e aos vestidos de festas escuros e decotados, alocando a narrativa num frio e chuvoso – por que não cheio de neblina? – julho gaúcho.

A partir deste conceito, cujo primeiro argumento postarei a seguir, segui com a escrita recuperando do que já tinha pronto alguns de seus antigos textos. Foi mais ou menos neste momento do trabalho, que fiquei sabendo do concurso a “Fantasy quer o seu mundo”. E foi aí que a correria realmente começou.

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"Se juntarmos Alan Moore, os games da série Bioshock, o anime Steamboy e somarmos a personagens maravilhosos da nossa cultura o resultado será: O Temível Dr. Louison."

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