10/12/2014 – A criação de Lição de Anatomia – Parte I

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Primeiros Esboços

Hoje, narrarei ao intrépido leitor ou à ousada leitora como cheguei à versão publicada de “A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison”. Para tanto, dividirei essa postagem em quatro partes, que detalham desde os primeiros insights, ocorridos em 2009, até a versão final publicada pela Casa da Palvra/LeYa em agosto deste ano.

Em 2009, mudei-me para Porto Alegre e empreendi um sonho antigo: me inscrever no processo seletivo da Oficina de Escrita Criativa da PUC-RS, curso anual ministrado pelo escritor e professor Luis Antonio de Assis Brasil. Tal oficina, a mais antiga do Brasil, já batendo na marca de trinta anos de existência, era ministrada em dois semestres, num ritmo fantástico de quinze encontros semanais.

Tratava-se de uma oportunidade bem especial de pertencer a uma turma de aspirantes a escritor na presença de um autor já consagrado e com uma grande bagagem cultural e literária. Além disso, uma oportunidade de obter um retorno crítico por parte de pessoas que não eram necessariamente amigos ou parentes.

Na época, o processo seletivo para a oficina exigia a entrega de três contos nos quais os autores deveriam minimamente evidenciar seu talento espontâneo ou, quando não, sua mínima percepção da técnica narrativa. Um dos contos que entreguei chamava-se “A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison”, peça narrativa em primeira pessoa na qual um assassino em série detalhava a sedução, o assassinato e a disposição das partes do corpo de sua vítima.

No ano seguinte à oficina, cogitei transformar aquele conto numa pequena noveleta em quatro partes que possuía o mesmo título. Porém agora, havia acrescentado outro personagem: um investigador grosseirão e desbocado que contrastaria com o assassino requintado e articulado. A noveleta se passava no final da década de 1940 e tinha por cenário Belo Horizonte. Em sua estrutura, havia um entrevistador cuja identidade permanecia em mistério até o dramático clímax e que conversava com o detetive Cândido a respeito da prisão e da escapada do assassino. Ao término, Louison revelava-se o entrevistador – que após a escapada havia se escondido no lugar menos suspeito: a casa do homem que efetuou sua prisão – e assassinava Cândido com uma lâmina cravada em seu coração. Ao deixar a casa na qual vivia o pobre policial, levava consigo o negro gato do seu arqui-inimigo.

Aquela noveleta de horror era sobre um vilão fascinante e atraente, bem mais simpático que o biltre e desgastado investigador. Obviamente, na criação de Louison eu estava buscando a imagem do “belo demoníaco”, termo literário usado para denominar os charmosos vilões shakespearianos e o Satã de Milton. Em nossos dias, seu correlativo é o vampiro sedutor (seja ele o Drácula de Coppola ou o Lestat de Anne Rice) ou a miríade de assassinos em série fascinantes que simplesmente invadiram a literatura, os quadrinhos e o cinema nas últimas décadas (e aqui vamos desde Dexter até o pai dos assassinos em série classudos, um certo doutor chamado Hannibal the Canibal).

A novela ganhara um subtítulo, “Da Arte como Amoralidade”, numa tentativa minha de produzir igualmente uma história de ficção e um tratado de estética. Como podem imaginar, a pretensão do imberbe escritor soçobrou e o resultado ficou aquém do esperado. E quando nem meus amigos mais queridos disseram que haviam gostado, fiz o que todo profissional inteligente faz quando recebe uma crítica: engaveta o erro ou parte para um novo projeto.

Eu optei pela segunda opção, ignorando o conto e a novela até setembro de 2013, quando decidi retomar a antiga ideia de Louison enfrentando o olhar investigativo de Pedro Britto Cândido. Porém, quando retomei à história, ela parecia-me mais e mais fraca, faltando a ela uma perspectiva adequada e uma mínima estrutura narrativa. Foi quando duas ideias e mudaram a cara do projeto de modo definitivo.

A primeira foi a percepção de que eu poderia usar personagens da literatura brasileira para contar essa história, recorrendo às suas vozes narrativas para dar conta do mundo e dos acontecimentos ao redor do enredo principal. E foi assim que cheguei a Isaías Caminha (Memórias do Escrivão IC, de Lima Barreto), chegando a Porto Alegre dos Amantes – não queria mais uma cidade desconhecida e sim uma cidade com a qual tivesse uma relação afetiva também – para escrever uma reportagem sobre os crimes de Louison, então internado num hospício sob a direção de Simão Bacamarte (O Alienista, de Machado de Assis).

Ao lado desses ícones, teria outros cenários que reuniriam também personalidades literárias. De um lado, o Palacete dos Prazeres, prostíbulo de luxo frequentado por Louison e suas vítimas, então sob a administração de Rita Baiana, Léonie e Pombinha (O Cortiço, de Aluízio de Azevedo). Do outro, uma sociedade secreta chamada Parthenon Místico (numa alusão ao Partenon Literário que existiu em Porto Alegre no século 19), formada pelos aventureiros do oculto Sergio e Bento Alves (O Ateneu, de Raul Pompeu), pelo cientista louco Doutor Benignus (criado por Augusto Emilio Zaluar num romance homônimo), pela médium indígena Vitória Acauã (Contos Amazônicos, de Inglês de Souza) e o imortal satanista Solfieri (Noite da Taverna, de Alvares de Azevedo). Além disso, abrilhantariam o grupo a presença de uma Luneta Mágica (criada por Joaquim Manuel de Macedo) e A Ilha do Desencanto (cenário criado por Apeles Porto Alegre no romance Georgina).

O segundo elemento adveio da intenção de escrever uma história popular, direcionada a um público juvenil/adulto. Foi aí que a estética steampunk surgiu, com seus zepelins, autômatos, utensílios místicos & ferramentas tecnostáticas. Com o verniz retrofuturista, voltaria também ao tempo dos grandes capotes e sobretudos e aos vestidos de festas escuros e decotados, alocando a narrativa num frio e chuvoso – por que não cheio de neblina? – julho gaúcho.

A partir deste conceito, cujo primeiro argumento postarei a seguir, segui com a escrita recuperando do que já tinha pronto alguns de seus antigos textos. Foi mais ou menos neste momento do trabalho, que fiquei sabendo do concurso a “Fantasy quer o seu mundo”. E foi aí que a correria realmente começou.

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