02/12/2014 – Algumas ideias sobre Processo Criativo

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Algumas ideias sobre Processo Criativo

Santa Maria da Bocarra do Monte, 02 de dezembro de 2014.

Neste Noitário de Trabalho, espaço que contrastará com a minha jornada diária, postarei informações referentes à criação de Brasiliana Steampunk, sobre meu processo de escrita, os bastidores de produção, entre outras reflexões que proporei ao intrépido leitor ou leitora. Como gosto muito deste tipo de discussão e como tenho uma predileção à verborragia, decidi limitar o que escreverei por aqui a mil palavras, nem mais, nem menos.

Isso porque acho adequado não abusar da paciência do leitor com textos que não possam ser consumidos num espaço de cinco minutos. No meu caso, será também um alívio poder suspender a escrita de outros textos mais longos – acadêmicos ou ficcionais – para simplesmente deitar sobre o papel ou sobre a tela reflexões, ideias & críticas no que concerne à literatura, cultura, estética e outras áreas relacionadas a “Lição de Anatomia” e ao estilo retrofuturista como um todo.

Se você está se perguntando qual a validade de um texto sobre a criação de um texto, posso garantir que a reflexão sobre o que fazemos é fundamental para o nosso crescimento como artistas. Ademais, porque é legal! Eu, particularmente, adoro ouvir/ler meus escritores prediletos falarem ou discutirem sobre os seus próprios processos de escrita. Para mim, é como poder estar lá, atrás do seu artista preferido, espiando por cima do seu ombro enquanto ele trabalha e cria e escreve e reescreve e deleta e reescreve e edita e altera… e por aí vai. Neste caso, me vem à mente não apenas a obra como também a forma como três escritores em especial discutem e abordam essa questão.

Como um grande admirador de Alan Moore, Neil Gaiman e Anne Rice, releio com gosto textos diversos desses autores que tratam simplesmente de seus próprios processos criativos. No caso de Moore, indico o projeto apresentado para Watchmen (publicado aqui na edição definitiva da Panini), bem como Alan Moore O Mago das Histórias de Gary Spencer. De Gaiman, não deixem de ler o projeto inicial para Sandman (publicado aqui no primeiro volume da edição definitiva, também pela Panini), além do excelente Sandman Companion, de Hy Bender. Por fim, de Rice, sugiro os Conversations with Anne Rice, conversa com a autora sobre sua vida, sua obra e suas opiniões sobre sexo, pornografia e arte, de Michael Riley, e The Unauthorized Anne Rice Companion (1996), editado por George Beahm, que republica diversas de suas entrevistas.

Ao ler essas entrevistas e textos, o que aprendi foi a importância não apenas de se fazer literatura como a importância de se pensar em como se está fazendo sua arte e de quais as suas razões para tanto. Não é apenas sobre contar histórias. É sobre contar histórias para um determinado público, sobre um determinado assunto, de um determinado modo. Neste caso, a reflexão sobre a própria criação, bem como as tentativas de respostas a esses pronomes interrogativos (o quê, por quê, pra quem e como), torna-se fundamental para o escritor tenha bem em mente o que está fazendo.

No meu caso, Brasiliana Steampunk é sobre várias coisas. Mas em especial, é uma história sobre histórias e sobre histórias brasileiras, criadas e contadas por autores como Álvares de Azevedo, Machado de Assis, Inglês de Souza, Raul Pompeia, Lima Barreto e muitos outros. Mas obviamente ao homenagear esses autores na forma de pastiche retrofuturista estou menos dialogando com eles e mais com o público contemporâneo e com suas próprias ideias, opiniões, constatações ou mesmo aflições.

“Lição de Anatomia” surgiu de uma ideia sobre dois estereótipos: o do herói e do vilão, vivendo num mundo no qual essas áreas definidas (bem e mal, justiça e corrupção, branco e preto, direita e esquerda etc) seriam corroídas por um relativismo moral inerente. Louison não seria essencialmente vilanesco e nem Britto Cândido perfeitamente heroico. Além disso, queria um romance que fosse sobre preconceito, violência e vingança, numa cidade não de Casais e sim de Amantes, na qual questões de gênero e sexualidade fossem tratadas não apenas com relativa naturalidade mas como os tópicos fascinantes que sempre foram.

Ora, quer dizer que seu romance tem dois casais gays? Sergio e Bento Alves e Léonie e Pombinha. Minha resposta era não apenas um “sim” enfático como um “por que não?”. Mas não apenas isso. Essa ideia não é minha. Estava lá, no Ateneu de Raul Pompeia e no Cortiço de Aluízio de Azevedo. Assim, por que não usar essas ideias, que estão por aí, circundando nossa cultura há tanto tempo? Por que não trazê-la de volta às nossas rodas de discussão, sejam elas em bares ou em salas de aula?

Parece pretencioso, eu sei, mas toda a arte o é, uma vez que ela se apresenta sempre como uma tentativa de alterar a percepção de seus leitores. E no caso de Brasiliana Steampunk, “pretensão” é tudo o que esta série almeja.

Pronto, acho que para uma primeira postagem de mil palavras, consegui atingir o ponto pretendido. Você está na dúvida se esta postagem tem de fato mil palavras? Faça o teste. Selecione, copie e cole num editor de texto e utilize a ferramenta “Contar Palavras”.

Vou te dar alguns segundos pra fazer isso.

(Enquanto isso, vou buscar água porque se manter hidratado é bem importante!)

Fez?

Viu? Falei a verdade. E eu sempre falo a verdade.

Exceto quando escrevo ficção, que a mais verdadeira das mentiras.

Aqui, todavia, pretendo tratar das verdades que perpassam a criação dessas mentiras que todos nós adoramos.

Quando abrimos um livro, somo como aquela criança que está diante do mágico de circo ou teatro. Queremos ver o truque. Queremos acreditar nele. Queremos que o sujeito com a cartola seja profissional e talentoso o bastante para nos fazer acreditar em magia.

Em minha opinião, arte é sobre isso.

Acreditar numa verdade de mentira que é pura magia.

E isso basta para uma primeira reflexão sobre processo criativo.

Mil palavras.

Nem mais.

Nem menos.

Até breve, caro explorador ou querida aventureira

Enéias Tavares

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