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20/04/2015 – Adapak dá sua opinião sobre Dr. Louison!

Adapak dá sua opinião sobre o Temível Dr. Louison! 
Enéias Tavares responde aos comentários de Diego Henrique sobre Brasiliana Steampunk.

DSC_1554Enéias Tavares e seu encontro com Adapak na Comic Con Experience 2014

Ele é escuro como a noite. Forte e destemido como poucos.
Ele está em fuga e cada dia vivo é uma conquista de coragem e fé.
Cada hora de sobrevivência é uma busca por respostas e justiça!

Quando li “O Espadachim de Carvão” pela primeira vez – sim, estou relendo-o agora, porque o livro é bom e porque estou escrevendo uma resenha sobre ele – fiquei fascinado por dois elementos do universo criado por Affonso Solano. Primeiro, por tratar-se de um mundo complexo, vívido e amedrontador. Uma Kurgala que vamos descobrindo, desvendando, enquanto nos aventuramos por seus rios imaginários, por seus penhascos íngremes e perigosos, assim como seu herói.

Segundo, porque Solano apresenta seu Adapak com vigor e energia, com desejos e dúvidas, numa construção de personagens que faz o leitor acompanhar sua jornada, e, muitas vezes, sofrer seus perigos, comemorar suas vitórias – poucas, diga-se de passagem –, e vivenciar suas descobertas, do mundo e de si próprio.

Assim, qual não foi minha surpresa ao chegar na Comic Com Experience, no dia 6 de dezembro de 2015, no estande da LeYa e da Casa da Palavra, um estande dominado pelo Trono de Martin, pela popularidade e simpatia de Solano e pela energia dos autores – sim, vários! – de Marmor, entre outros elementos. Mas além deles, o que encontrei foi um cosplay real e fascinante de Adapak, com a pele negra, com as vestes carcomidas de aventuras e temores, com as espadas feitas de ossos! O herói recebeu belo cosplay de Diego Henrique, que, como o protagonista de “Espadachim”, transpirava simpatia e energia.

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A capa do romance de Solano e o Adapak de Diego Henrique

No final do evento, como sempre acontece, trocamos livros e contatos. Mas como nem sempre acontece, uma das partes escreveu pra outra respondendo ao livro. O que segue abaixo é uma conversa virtual na qual vou responder a alguns dos comentários de Diego Henrique – vulgo Adapak – sobre “A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison”, comentário postado no seu perfil no Facebook no qual ele responde a vários temas levantados por Affonso Solano, Diogo Braga e Roberto Estrada no podcast Matando Robos Gigantes 265.

Respondi seu comentário porque, como todo escritor, adoro bater papo sobre meu trabalho, mas também  porque as questões levantadas pelos amigos do Jovem Nerd e mencionadas por Diego dialogam com muitas das minhas reflexões nos últimos meses, tanto sobre o universo de Brasiliana Steampunk como também sobre a recepção do livro.

Por fim, porque temo a forma como Adapak reagiria caso não lhe pagasse delicadeza com delicadeza. O mundo de Kurgala é perigoso. Como o nosso. E o que levamos daqui e de lá, são os vínculos de afeto e amizade. Nada além disso.

Um abraço, Affonso, e obrigado pela sua criação. Um abraço, Diego, e obrigado pelo seu Adapak e pelas suas questões. Um abraço aos leitores, sempre. Sem vocês, não estaríamos aqui, nos divertindo como nos divertimos.

Enéias Tavares
Santa Maria das Longas Postagens, 20 de abril de 2015.

Sobre “A Lição De Anatomia Do Temível Dr. Louison”

Por Diego Henrique

* Na Comic Con Experience, enquanto estava me apresentando como Adapak (Espadachim de Carvão) na Editora LeYa, tive a oportunidade de conhecer Enéias Tavares. Muito simpático e atencioso, conversamos por um bom tempo. Ele me apresentou o universo de “Brasiliana Steampunk” e sua obra. Logo de cara curti sua proposta. Ontem terminei de ler o livro e agora posso afirmar sem sombra de dúvidas que é uma das melhores coisas que já li. Somente hoje vi uma postagem do MRG falando sobre o livro, o que me deixou muito feliz em ver uma obra tão fantástica sendo divulgada desta forma. Isto me incentivou a escrever este post, pois tive algumas percepções um pouco diferentes em relação aos Matadores, além de pontos que gostaria de abrir para discussão ou expor minha visão. Dividirei em tópicos e tentarei evitar spoilers o máximo possível.

Acrescento, Diego, que o podcast do MRG é bem divertido. Para mim, foi muito gostoso rir junto com as piadas dos supracitados matadores. E penso que o espaço da internet seja fantástico justamente por permitir um ambiente de descontração e leveza para discussões opinativas como essa.

* Primeiros Registros de Isaías Caminha. A principio foi citado que a história começa lenta, e depois é discutida a necessidade de adequação do leitor no universo, fazendo apresentação das adaptações do que já conhecemos do mundo real com o Steampunk. Mas ao contrário da opinião dada de forma geral, isto não me incomodou. Talvez por ter gostado do modelo de narrativa e da forma que tudo foi construído. Neste momento já passamos a entender onde estaremos imersos em termos de tecnologia e cultura, além do formato de registros que serão utilizados na obra inteira. Para mim, não houveram excessos e ou faltas. Com todas as explicações e descrições que são fornecidas no início, automaticamente passamos a desenhar cada aspecto dos ambientes cada vez que são apresentados, que nos leva ao próximo tópico.

Algumas pessoas têm comentado o “início lento” de “Lição de Anatomia”. Apesar de compreender a opinião, Diego, defendo a primeira parte como fundamental à ambientação do mundo e à apresentação dos principais personagens e cenários. Ademais, acho que a linguagem um tanto decadentista de Caminha –inspirada pelo romance de Lima Barreto – auxilia o leitor a adentrar num mundo que seria exótico, sinestésico, intenso. Penso o romance também como uma pequena máquina do tempo literária e esse início, ao obrigar o leitor/leitora a pisar no freio da leitura e a ligar o botão da atenção, auxilia a produzir esse efeito. Que bom que gostaste deste início e que percebeste a estratégia narrativa presente nele.

* Falta de Elementos Steampunk. Discordo quando é citado a ausência de elementos Steampunk. De fato não é mencionado com frequência as sensações do ambiente, os objetos com os quais se interage, as vestimentas, etc. Porém, considerando os relatos iniciais e o formato em que ela é contada, já passamos a entender onde estamos e o que existe. E lembrando que não existe um narrador (mas sim cartas, documentos e gravações), seria muito gratuito ficar mencionando os itens dispostos ao redor apenas para ambientalizar, visto que já está subentendido o que há em cada local e situação. Um exemplo disso é como qualquer e-mail que se envia para alguém. Focamos no assunto principal, sem dar importância para coisas secundarias. Celular hoje em dia é algo completamente normal; há duas décadas atrás, nem tanto. Se fosse feito um relato deste período, certamente este objeto incomum receberia algum destaque especial.

Esse elemento também decorreu de uma escolha narrativa. Acho que o romance tem um tamanho adequado, uma vez que também não queria produzir – ao menos não por enquanto – um volume de mais de quinhentas páginas. No caso do detalhamento da tecnologia, acho que ele existe quando primordial à história, como os zepelins iniciais ou os secretários robóticos ou o surgimento dos autômatos em substituição do trabalho escravo ou mesmo a “surpresa tecnológica” envolvida na fuga de Louison. Nos próximos romances da série, pretendo aprofundar alguns elementos desta tecnologia, mas nunca esquecendo da dinamicidade da história, o que considero fundamental. Não gosto quando narradores de ficção científica param a narrativa para nos dar aula sobre a tecnologia empregada. Prefiro muito mais aqueles que nos suprem com informações mínimas deixando-nos à tarefa de complementar imaginariamente os detalhes que darão cor à ambientação.

* Natural x Normal x Moral x Comum. Certo dia, tive uma longa discussão com um amigo em relação aos conceitos de Natural (manifestações instintivas), Normal (a forma que “deveria” ser), Moral (o que é “certo” ou “errado”) e Comum (como em um senso geral algo é encarado). Apesar de muitas vezes se apresentarem como coisas parecidas, são conceitos completamente diferentes. Entendendo o fundamento de cada uma, passamos a separar o Compreensível do Admissível. Baseado nisto, principalmente por estarmos falando de outra época (independente dos aspectos fantásticos Steampunk, já que a essência da cultura permanece), algumas situações apresentadas foram absorvidas por mim de forma curiosa. Com o tempo me fizeram refletir sobre como e porque encaro cada uma a sua forma e a visão do personagem em relação ao fato. Questões sobre o racismo, o “amor invertido” de Sergio e Bento, o palacete dos prazeres, visão de mundo de Simão Bacamarte, a lealdade de Pedro Cândido, a razão das ações de Dr. Louison, até mesmo as ações dos membros da Camarilha, entre outras coisas, me chamaram atenção no romance de Enéias. Junto a isso, a percepção de não-binaridade em atos dos mais simples aos mais hediondos em axiomas diversos me fizeram pensar sobre alguns valores e o porquê deles. Algumas vezes entrei em paradoxo. Mais pra frente, ter sido colocado em cheque entre o que é Justo e o que é Moral foi algo genial.

Aqui, Diego, tu tocas em diversos pontos complexos que precisaria de páginas e páginas para discutirmos apropriadamente. Quem sabe em outro contexto? Fica o convite. Mas gostaria apenas de citar dois. Quanto à “não-binaridade” ou o evitar os “estereótipos”, sejam eles de gênero, ou de sexualidade, ou de etnia, ou de cultura, fui buscar esses elementos na própria literatura brasileira. Ora, “O Ateneu”, de Raul Pompeia, e “O Cortiço”, de Aluízio de Azevedo, de onde retirei personagens como Bento e Sergio e Rita Baiana e Pombinha, por exemplo, apresentam uma rica paleta de possibilidades, não apenas sexuais, como humanas, e por isso são grandes obras, obras que resistem ao tempo e às mudanças sociais. Acho que a literatura deve ampliar nossa percepção do mundo, não enquadrá-la ou limitá-la. Espero que Brasiliana Steampunk consiga também fazer isso. A relação de Bento e Sergio, por exemplo, que foi secundária em “Lição de Anatomia” ganhará destaque no segundo volume da série, bem como o antigo romance de Vitória e Solfieri. Quanto à diferença entre “justiça” e “moralidade”, fico feliz que a última versão do romance tenha mantido essa discussão. Ela foi uma das primeiras a entrar na história original, quando ainda não havia o elemento steampunk ou mesmo os heróis da literatura brasileira. Inicialmente, tratava-se apenas de Louison e Cândido discutindo essas questões e um matando o outro no final. Felizmente, essa versão de “Lição de Anatomia” ficou na gaveta. A versão final é bem mais interessante, justamente por manter a ambiguidade e por deixar ao leitor a resposta final à questão.

* Capa x Conteúdo. De fato, a capa do livro, apesar de uma arte sensacional, não traduz bem seu conteúdo. Esta não é uma história de aventura. Ao observá-la, uma pessoa desavisada pode esperar algo como um “Wild Wild West”, sendo que o Steampunk aqui é a ambientação como um todo, e não o modelo de história que geralmente estamos acostumados a ver. Porém, dado o formato de “localização” de época, interpreto como uma brincadeira bem humorada, assim como o título extenso. Enxergo isto como aquelas capas de jogos de Atari ou Snes, onde uma cena épica é inserida apenas por questões comerciais ou por tentar injetar na mente da pessoa como deve ser traduzido aquilo que será consumido. Isto não me incomodou. Curti muito da forma que é, mas entendo quando dizem que não é a capa mais adequada. (Entendo, mas não concordo)

A capa divide opiniões com respeito ao que ela comunica e o que o romance apresenta. Apesar de compreender, discordo em tese por várias razões. Primeiro, é inegável que a capa é super-heróica e esta foi uma escolha consciente de Affonso Solano ao contatar o grande Rodney Buchemi para produzi-la. O romance brinca com elementos de época, satiriza uma linguagem de “ficção de polpa” e também muitos elementos da nossa literatura. Pensamos que a capa dialoga com isso, produzindo uma ironia visual que, além de bela, marca uma identidade steampunk, divertida, vibrante, elementos que, espero, também fazem parte de Brasiliana Steampunk. Muitos leitores têm comprado o livro pela capa sim! Muitos me disseram isso em eventos e também por mensagens. Todavia, quando lêem o romance, vêem como bela surpresa que um produto que “prometia” aventura e diversão, apresenta isso e muito mais. Há também a questão – muitas leitoras têm me dito isso – das figuras femininas da capa, que poderiam dar uma idéia distorcida sobre o tipo de representação do feminino presente no romance. Aqui também, gosto de pensar mais na ironia. Brasiliana Steampunk é sobre mulheres fortes e determinadas. Não há meninas em perigo aqui. E acho que capa também comunica isso, o que é uma grande qualidade, penso. Se quiserem saber mais sobre o processo de construção da capa, indico a entrada do Noitário do dia 15 de janeiro de 2015.

* Literatura Clássica. Uma das coisas que mais gostei do livro foi a forma que ele despertou meu interesse em conhecer os clássicos da literatura nacional. Sempre fui do tipo de aluno que começava a ler o livro, não aguentava e baixava o resumo pra passar na prova. Hoje entendo o valor literário das grandes obras. Mas da forma que me foram apresentadas (além da minha maturidade naquele momento) apenas desmotivava toda e qualquer vontade de as conhecer. Com a brincadeira feita por Enéias, de forma muito divertida descobrimos quão profundo pode ser cada obra, e com isso naturalmente nos induz a ir atrás de suas origens. (Depois de refletir sobre isso, talvez eu dê uma segunda chance para Clarice Lispector e tente ver com outros olhos “A Hora Da Estrela” – um trauma de infância!!!)

Então, Diego, ainda tenho problemas com Clarice e outros tantos livros. E concordo inteiramente contigo: não devemos culpar as obras ou os autores por experiências que tivemos na infância ou na adolescência que mais nos afastaram delas do que nos aproximaram. E acho que sim, que temos o dever de dar uma “segunda chance” a obras para as quais não estávamos preparados ainda. Eu tive duas experiências ruins, semelhantes às que tu descreves, na adolescência: Uma com “O Cortiço” e outra com “O Ateneu”. O primeiro é hoje meu romance brasileiro favorito, por sua energia, por sua riqueza e por seu dinamismo narrativo e riqueza de ambientação e caracterização. O segundo, confesso, admiro muito mas ainda tenho que fazer um grande esforço para ler e apreciar como ocorre com outras obras. E os processos de leitura são assim mesmos. Não existe um livro certo e sim um momento certo para cada livro. Espero muito que Brasiliana Steampunk desafie alguns dos leitores a superarem seus preconceitos com as obras da nossa literatura. Escrever essa série ajudou a superar muitos dos meus.

* Expansão do Universo. Quando terminei de ler quis saber mais sobre o universo de Brasiliana Steampunk. Existem religiões africanas? Como era a tecnologia na época da colonização? Os navios já voavam quando chegaram na Ilha de Vera Cruz? Ou será que passaram a voar só depois de 1906 com os protótipos de Santos Dummond? (Isto é, se ele existir neste universo). Considerando a existência de misticismo e tecnologia retrofuturista, será que em algum momento da História um cientista aficionado por alquimia decidiu tentar dar vida a um ser humano? Muitos destes questionamentos não influenciam no enredo, mas quando uma obra é boa de verdade é muito divertido desvendar estes tipos de detalhes de seu universo – principalmente os que são mencionados mesmo de forma superficial, como a existência do Crucificado.

Adorei suas considerações, Diego. Mesmo! Sim, penso na série Brasiliana Steampunk como cinco romances mais um Guia de Referências, entre contos e outras surpresas que virão, como o Tarot e talvez alguns jogos analógicos ou de tabuleiro. Sobre o Guia, que planejo escrever ou finalizar entre a publicação do terceiro e do quarto romance, ele será escrito em parceria com outros escritores e ilustradores e apresentará uma série de complementos ao universo de Brasiliana Steampunk. Penso numa coletânea de textos, cartas, mapas, linhas de tempo, fotos, imagens, reportagens de jornal, recados psicografados, anúncios, diagramas, poemetos, um baralho de tarô, entre outras coisas esquisitas, num formato livro de RPG que “explica” ou “aprofunda” o cenário. O que conectaria essas diversas textualidades seria a chegada de um visitante às ruínas do Parthenon, entre as décadas de 30 e 40, e a necessidade de recolher todos esses materiais. Uma ideia que me vem agora é brincar com aqueles livros antigos de RPG que fazem uma pergunta e dependendo da resposta/escolha do leitor, ele vai para a página 34 ou 57, por exemplo. Mas veremos o que virá pela frente e até que ponto os leitores estarão interessados. Para mim, este é o principal critério.

Concluindo, estou muito ansioso para ver quais novas surpresas o universo de Brasiliana Steampunk nos reserva. Sem dúvida, este é um dos meus livros preferidos. Recomendo-o a todos.

Muito obrigado, Diego. Suas considerações me motivam a continuar investindo em Brasiliana Steampunk. Para mim, tem sido uma grande diversão. Espero que continuemos todos nos divertindo tanto com esse universo que tem tanto de nós e que ao mesmo tempo energiza a nossa imaginação. Um grande abraço.