Tarô

Arte de Marcus Lorenzet
Texto de Enéias Tavares & R. Cândido.

O cenário é antigo, com móveis de madeira e cortinas pesadas.
O cheiro é de almíscar egípcio. Incenso queima e ascende ao redor.
Você está diante de uma antiga mesa de cerejeira.
À sua direita, uma janela circular em forma de escotilha revela um mundo retrofuturista.
A cena é extraordinária, maculada apenas por uma fissura no expeço vidro.
Ao alcance de sua visão, zepelins, vapores e seres exóticos, humanos, animais ou robóticos.
À sua frente, também sentado à mesa, um destes últimos.
Você é carne, ossos e abstrações. A máquina é ferro, fios e matemáticas precisões.
Seguindo a programação, ela lhe diz o que fazer.
Feche os olhos e pense em uma pergunta.
Ela pode ser sobre a vida. Ou sobre sua irmã fatal.
Tal questão pode ser sobre amor. Ou sobre o fim do amor.
Pode também ser sobre grandes projetos. Ou pequenos eventos do seu dia a dia.
Uma dúvida sobre tecnologia. Ou talvez, caso prefira, sobre magia.
Pensou? Então, abra seus olhos.
Encare a máquina fria e seu braço estático, que aponta a um peculiar conjunto de cartas.
Dispostas em forma de meio arco, elas esperam por você.
Agora, tire uma carta. Três talvez. Ou três conjuntos.
Quantas achares necessárias. Não importa.
O braço tecnostático aponta para o baralho.
Tirar uma carta é um lance de sorte, de acaso, de deixar girar a roda da vida.
Por outro lado, desvirar um arcano e lê-lo ou interpretá-la é uma ação bem humana.
Uma rufada de ar penetra no ressinto pela fissura da escotilha.
As cartas voam, fazendo destino & escolha dançarem no ar fumacento. O que você fará?
Brasiliana Steampunk Tarot é sobre sorte e azar, sobre partir ou ficar, sobre desistir ou continuar.
Além disso, é sobre quem somos. Sobre quem somos de verdade.
O autômato enferrujado estaca. Após revisar sua programação, pergunta:
Quem é você?
Eis aqui a mais importante das perguntas.

Brasiliana Steampunk em 78 Paginas

R. Cândido

Os arquétipos… São, sobretudo, estruturas fundamentais características, sem conteúdo específico e herdadas desde os tempos mais remotos. – K.G.Jung, 1935

78 lâminas. Um jogo antigo que mesmo tendo suas regras desconhecidas do grande público, perdura por séculos. O tarô, a despeito do esforço de milhares de pesquisadores, permanece sem uma origem definida, um segredo perdido no tempo que continua encoberto por um véu de suposições. Seu conteúdo, por outro lado, é completamente acessível a toda e qualquer pessoa que deseja conhecê-lo.

Há quem defenda a hipótese dele ter nascido dos tradicionais jogos de carta. Os jogos de carta europeus evoluíram diretamente das cartas sarracenas trazidas do norte do continente africano (possivelmente do Egito) pelas hostes mamelucas, ou Mamlûk, uma milícia turco-egípcia criada por Salah ad-Dîn (Saladino) no século XII, originalmente formada por escravos oriundos do Cáucaso, do sul da Rússia e da Ásia Central, e homens livres em sua maioria turcos, árabes e curdos. Esta grande babel de mercenários convertidos ao islamismo adaptou seu jogo diretamente de um jogo de cartas chinesas. O tarô, como hoje o conhecemos, é formado por dois grupos de cartas: os Arcanos Menores – 56 lâminas emprestadas das cartas dos jogos europeus –, e os Arcanos Maiores – 22 lâminas que representam diversos arquétipos amplamente discutidos.

Famosos autores declararam que o tarô é um antigo livro egípcio sem palavras. Entre os defensores desta ideia estão Etteilla, Papus, Grimgoneur, o mago francês Eliphas Levi, MacGregors Matters (Maçon, Rosacruz e Fundador da Golden Down) e Aleister Crowley (Mestre da O.T.O e fundador da Astrun Argentum). Segundo A.E.Waite, o tarô carrega segredos da seita cristã dos Albigenses. Gertrude Moakley defende ser apenas uma adaptação de sonetos de Petrarca. Já Paul Huson, por sua vez, que estas cartas sejam um instrumento mnemônico, um costume popular na renascença, e carregam a doutrina do gnosticismo greco-egípcio.

Não existe nada mais distante do uso contemporâneo que damos à palavra “hermético” – um conhecimento secreto disponível apenas para poucos eleitos – do que o tarô. No entanto, nada está mais próximo do seu real significado: o tarô é mais que um jogo de cartas, é um compêndio de conhecimento arquetípico que pode ser acessado por qualquer um disposto a explorar suas páginas.

Mensalmente, você poderá acompanhar a construção de baralho exclusivo, baseado no universo de Brasiliana Steampunk. Com arte de Marcus Lorenzetti, este baralho apresentará também textos inéditos que tanto introduzirão você ao universo da série como também auxiliarão no conhecimento deste centenário sistema de símbolos e metáforas. Está preparado para começar a leitura?